Depois de um bom tempo, o
blog Pena Digital volta a ter um colaborador. Após contato no
Facebook, convidei essa pessoa a ser colaboradora deste
blog, pois sei que ela enriquecerá o conteúdo que compartilho com os leitores.
Convite feito, convite aceito, o único pedido dela foi não ter de escrever apenas sobre medicina e saúde. E, é claro, que eu concordei, pois este espaço digital tem justamente o objetivo de discutir temas diversos.
Vamos, então, ao primeiro artigo, que, excepcionalmente, será publicado hoje. Os próximos serão publicados às terças-feiras.
Por Clarice Pires Pacheco*
A pediatria brasileira completa neste ano um centenário de existência, carregando no seu bojo a luta pela dignidade da saúde das crianças brasileiras.
Em artigo publicado no Jornal da Associação Médica Brasileira (JAMB), o presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Dr. Eduardo Vaz, extravasa sua insatisfação pela falta de atitude e de motivação das autoridades públicas em criarem um padrão de atendimento preferencial à criança brasileira. Segundo o professor Vaz, a prioridade da Pediatria brasileira é que todas as crianças tenham no seu primeiro ano de vida, época vital da existência humana, o direito ao acompanhamento ambulatorial de puericultura.
Quem tem filho sabe o valor da primeira consulta do bebê, onde tudo é perguntado e tudo é esclarecido.
É no consultório do pediatra geral que entram pais agoniados e saem indivíduos orientados a levarem adiante o propósito de criarem um individuo inteiro e saudável sob todas as formas.
São fartas as evidências científicas sobre a importância da detecção de doenças genéticas e prevenção das crônicas não transmissíveis nos primeiros meses de vida, uma vez que corretos diagnósticos e boas orientações podem prevenir doenças de aparecimento desde a infância à idade adulta. Doenças como o diabete, a hipertensão e a obesidade, por exemplo.
Quantos erros são evitados numa simples consulta de rotina, onde o leite materno, orientado para ser dado até o primeiro ano de vida, se constitui num dos fatores imprescindíveis do controle da mortalidade infantil, onde as vacinas que previnem uma imensa gama de doenças são facultadas e, onde a disciplina do amar, mas corrigir e dar limites é ensinada.
É quase um milagre, porém, nos dias de hoje, fazer com que uma mãe amamente seu filho por alguns meses, até que os perigos inerentes à primeira infância se escoem.
Falta o estímulo, o suporte, o acompanhamento amoroso do pediatra diante da fragilidade daquele ser para quem ele foi treinado e inspirado para cuidar e proteger. E, falta o pediatra, também!!
Entre colegas, dizemos que somos animais em extinção, e que nosso lugar é no IBAMA. Brincadeira triste essa, para um país onde a mortalidade infantil e materna, no parto, ainda são consideradas vergonhas mundiais. Onde as taxas de morte infantil, em alguns estados como Alagoas, ainda se comparam a países africanos, pobres e sem nenhuma estrutura básica de saúde. E mais, onde um estado rico como Santa Catarina, listado como um dos oito estados que movem a economia nacional, permite que a chance de que uma criança venha a morrer no primeiro ano de vida, no Planalto Serrano, seja quase três vezes a de morrer na Região Nordeste. Isso é iniqüidade social!
Um país que abriga no seu seio uma falta de planejamento e gerenciamento técnico e permite que desigualdades de acesso ao atendimento atinjam os grupos socioeconômicos menos favorecidos, os desvalidos de uma política de saúde decente e verdadeira.
Quanto tempo leva o pediatra para realizar uma consulta de qualidade, a chamada puericultura? Em torno de 40 minutos a uma hora...
E, aí, é que começa o maior dos problemas: a remuneração médica pelo tempo gasto para essa consulta de calibre sem dimensão, e que pode selar o destino físico e mental dos futuros adultos, custa a mesma bagatela que outra, de alguns minutos, quando o paciente vai ao consultório apenas para que um exame seja avaliado pelo seu médico assistente.
Com a assistência pelo SUS ainda não normatizada, as coisas pioram no sistema privado, onde a luta ainda é para que as consultas não se restrinjam apenas àquelas para tratamento de doenças e com intervalo de no mínimo 30 dias.
Diante deste quadro escatológico, coube aos pediatras, então, a evasão das residências médicas específicas, a tal ponto que hoje sobram vagas nesses cursos, em detrimento de outras especialidades, onde os médicos, através de cursinhos, preparam-se para entrar em especialidades que lhes forneçam melhores chances de trabalho e maiores ganhos financeiros.
Quando todos os países do mundo voltam seus olhos para uma política de saúde generalista e da família, o Brasil segue um modelo que não deu certo e as faculdades nos seus cursos pagos de pós-graduação estimulam a criação dos superespecialistas barbaramente remunerados, mas inacessíveis ao povo carente de atendimento pelo SUS.
Contudo, há luz no meio desse túnel, uma vez que, mesmo nesse contexto tumultuado porque passa a pediatria brasileira, vê-se, felizmente, em ação, uma Sociedade Brasileira de Pediatria bem representada e afinada com os direitos infantis, e que junto com os pediatras fiéis a esta ideia brigou passo a passo, sem esmorecer, pela inclusão do atendimento ambulatorial da Puericultura, ato já conquistado, colocando-o como porte 3b (cerca de 70 reais) na Tabela de Honorários da Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos – CBHPM.
No último Congresso brasileiro de pediatria em Salvador-BA, quase seis mil pediatras, e eu estava lá, levantaram suas bandeiras de luta para que a pediatria geral seja respeitada pelo valor que possui na formação do povo brasileiro.
Agora, a luta é para que a puericultura faça parte também do Rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que o Congresso Nacional a consagre de vez, como a joia do atendimento infantil e que haja uma importante mudança de lógica, que valorize a prevenção.
Além disso, estão sendo pleiteados juntamente com a AMB e a OAB, recursos necessários ao financiamento do SUS, para que haja melhor remuneração e mais contratações de pediatras em cada postinho de saúde, em cada cantinho do país, onde haja um filho de brasileiro com necessidade de ser atendido.
Os filhos do Brasil precisam de cuidados especializados e de qualidade. Não teremos no amanhã cidadãos saudáveis, competentes e produtivos, se não dispensarmos hoje toda sorte de recursos à saúde de nossas crianças!
Após tantos anos nas lides da puericultura na pediatria geral, de certa forma me alegra ver que, por pior que ande a saúde brasileira, ainda existem os heróis que não perderam de vista a sublimada vocação e o sentimento de responsabilidade diante de uma profissão que lida com o mais valioso bem da humanidade: o homem!!
P.S. A palavra Puericultura , oriunda do latim “puer, pueris”, significa criança e se refere à ciência médica que se dedica ao estudo dos cuidados com o ser humano em desenvolvimento, mais especificamente com o acompanhamento do desenvolvimento infantil.
(*Médica pediatra e dermatologista infantil, auditora médica da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina , professora da Faculdade D. Bosco e mestra em saúde pública pela Universidade de São Paulo-USP)