Na última quinta-feira (25), apareceu um outdoor nas proximidades do Hotel Silvestre, no Centro. O conteúdo dele apresentava críticas à administração municipal e aos vereadores.
Ficou em pé tão pouco tempo que não consegui vê-lo materializado no local em que foi plantado.
Mas no mundo em que quase todos possuem uma máquina fotográfica a mão, acoplada ao celular, uma foto do outdoor chegou até minha caixa de email, a qual reproduzo abaixo.
Até agora nenhuma "organização" assumiu a autoria do "ato terrorista", não se sabendo, portanto, quem fincou a reclamação.
O fato tem seu destaque porque esse tipo de manifestação, usando-se dessa forma de exteriorização - pelo que eu lembre -, nunca houve fora do período eleitoral propriamente dito.
Por outro lado, contudo, na minha visão crítica sobre esse evento, houve uma valorização demasiada do fato. Alguns reclamaram ferozmente contra o outdoor, enquanto outros, no mesmo tom, protestaram contra a retirada da placa.
Meu ponto de vista. O fato de se inserir no outdoor a palavra "população" como subscritora do apelo manifestado não foi correto. Na minha opinião, ou se colocava o nome do autor ou da entidade ou seja lá do quê, ou se deixava sem qualquer "assinatura". Anônimo, mesmo.
A palavra "população" lá inserida não poderia ser usada em qualquer contexto, pois não representaria o pensamento geral.
Contudo, sem analisar o conteúdo exposto, penso que a manifestação foi um ato de democracia e liberdade de expressão, ainda que se condene o anonimato.
Analisando a questão do anonimato, que ao que parece foi o fundamento mais usado para criticar a manifestação estampada, trago um trecho do livro "Pensamentos Liberais", lançado em 4 de abril de 2011, de autoria de
Hélio Beltrão:
A perseguição ao anonimato
Aquilo que Thomas Jefferson chamou, na Declaração de Independência, de "longo trem de abusos e usurpações", começa em geral — no que se refere à censura — pela proibição ao anonimato. O anonimato protege o autor de eventuais perseguições, de chantagens e de ataques maliciosos de ordem pessoal, e mantém o foco nas ideias. Os fundadores dos Estados Unidos sabiam da importância do anonimato, e o consagraram na Constituição. Alexander Hamilton e James Madison escreveram os "Federalist Papers" sob o pseudônimo "Publius", e vários outros fundadores utilizaram pseudônimos diversos de tempos em tempos. Recentemente, em 1995, a Suprema Corte, declarou: "A proteção de discursos anônimos é vital para a democracia. Permitir que dissidentes protejam sua identidade os libera para expressar visões críticas defendidas por minorias. O anonimato é a proteção contra a tirania da maioria".
Para quem gosta de discutir o tema "liberdade de expressão", leia o
artigo completo de Hélio Beltrão e saboreie por alguns instantes uma excelente opinião sobre o assunto.
Voltemos ao fato que originou este post.
Penso, porém, que caso o outdoor tenha sido exposto por alguma sigla partidária, esta não poderia usar do anonimato, em hipótese alguma. Isso porque seria imprescindível para que essa "população" analisasse se tal sigla utiliza ou utilizou desmedidamente o mesmo expediente - ora combatido - em outras esferas de governo ou até mesmo na atual administração municipal.
Concluindo. Para mim, o mais importante nessa discussão não é a simples questão se o outdoor deveria ficar ou não. O mais importante é justamente os debates que foram propiciados pelas duas ações. O debate é exercício de democracia. E quanto mais a exercemos, mais forte ela se torna.